terça-feira, 21 de maio de 2013
E o amor, onde é que está?
Na semana passada uma amiga pediu para que hoje eu escrevesse sobre o "amor". E aí fiquei pensando o que eu poderia escrever sobre isso, afinal, um assunto tão clichê, porém tão profundo.
E de repente parece que tudo o que foi acontecendo caminhou para uma reflexão sobre o assunto.
Comecei então a pensar no que o amor significa HOJE para mim. Acredito que nada mais verdadeiro do que quando aquilo que é compartilhado é sentido por você próprio.
Quando penso no amor, penso nas várias formas em que ele se apresenta.
Quando éramos mais jovens, a palavra "amor" nos remetia ao sentimento afetivo, naquele carinha legal que você curtia e com quem queria passar o resto de sua vida. Toda vez que pensava sobre o assunto, pensava no quanto era legal compartilhar esse sentimento com um namorado.
A partir de algumas experiências, a maioria delas frustrantes, pensei no quanto seria necessário procurar uma outra pessoa, que fosse mais "legal" ou "melhor", e que compartilhasse esse sentimento de forma mais intensa e terna. E nisso, fui pensando em como poderia ser diferente com esse ou aquele, e curiosamente, as histórias se repetindo. No decorrer dos anos, a minha concepção do amor foi tomando uma outra forma.
Passando um tempo sozinha comecei a questionar o que é o amor e porque ele é tão gostoso mas ao mesmo tempo tão delicado. Foi aí então que aprendi a primeira e mais clichê das lições: o amor começa primeiramente no nosso interior.
Isso até parece uma daquelas mensagens prontas compartilhadas em redes sociais, mas apenas quem já sentiu sabe como é. É nesta primeira "lição" que parece tão fácil onde mora o grande desafio. Um desafio que implica tantos enfrentamentos os quais você mal imaginava.
Poder então ficar sozinha com você mesma; aceitar que você não é aquela pessoa que por tantos anos idealizou em sonhos adolescentes; descobrir do que você realmente gosta ou não; descobrir o que você consegue fazer e o que você não vai aprender nunca; chorar ao entrar em contato com uma dor tão grande e tão sua; aguentar as horas entediantes que você passa apenas com você sem ter alguém do lado, e conseguir ouvir seu silêncio interior; e poder descobrir que você talvez possa ser sua melhor companhia.
Taí uma prática que não vem com mensagens compartilhadas, livros de auto-ajuda ou conselhos de amigos. Se amar, não é se impor ao outro, mas sim, aprender a ficar sozinha e gostar dessa companhia.
Depois desse grande passo você começa então a pensar naquilo que te rodeia. De repente, você sente uma grande necessidade de estar rodeada daquilo que te agrada e que te faz bem. Você então começa a perceber o que está recebendo e o que está devolvendo. Outro "passo" extremamente clichê, mas difícil no quesito perspicácia e dedicação. Muitas coisas que vivemos passam completamente despercebidas no nosso dia a dia, e reproduzir aquilo que já vivemos é a parte mais cômoda e rápida de se resolver as coisas.
Quando me questionei qual era minha maneira de amar, nesse estágio de reflexão, fugi do sentimento afetivo e pensei em todas as relações. E foi aí que eu não descobri. Porque amor a gente não descobre, a gente sente.
Senti então que amor nada mais é do que um grande respeito, uma grande liberdade. É aquilo que eu respondo quando não sou indagada, é aquilo que falo quando não sou instigada, é aquilo que ofereço quando não tenho nada. É aquilo com o qual convivo quando não deveria gostar, é aquilo que procuro muitas vezes onde não se tem, é aquilo que ensino quando nada sei. É simplesmente o oposto da ação e da reação e de tudo aquilo que se aprende em 3 ou 4 "lições" iguais as que apresentei até o último parágrafo. Porque o amor é assim. Você nunca vai retribuir quando receber, ou oferecer para ser privilegiado. Amor é mais do que aquilo que foi ensinado por seus pais ou pessoas queridas durante todos os anos de sua vida ou mais do que investidas narcísicas no espelho. É uma essência imutável mas que se transforma a cada dia. Está muito além de qualquer explicação consciente.
Amar é aceitar a completa diversidade que nos cerca e aprender a conviver com a angústia de que nem tudo será como a gente deseja. É sentir algo que não precisa de retribuição de um outro, porque a maior retribuição é o sentimento que cultivamos por nós mesmos. O amor é interno, é discreto e avassalador, é silencioso, devagar e é SEU.
Dispensei então, todas as lições de casa sobre o amor. Dispensei também todos os sentimentos superficiais. Sobrou apenas eu, a única coisa que eu necessitava e tanto me faltava.
E foi assim que descobri que ele está sempre onde menos procuramos, está numa das reciprocidades mais inviáveis das quais acreditamos e num dos lugares o qual nunca imaginamos.
Então meus caros, ler essa publicação ou qualquer outra sobre o amor, sinto-lhes informar, não irá lhes ajudar a descobrir ou ao menos sentir o que é isso. Porque ele está aí dentro, não aqui fora. É seu, e nunca será descoberto na leitura da descoberta do outro. Não está nos livros ou no cinema. Está apenas e exclusivamente em você!
Abç... Patrícia.
terça-feira, 14 de maio de 2013
Isentando responsabilidades e encarecendo afetos
Diante de acontecimentos não só corriqueiros, mas frequentes para mim nos últimos tempos, refleti bastante no quanto a maioria dos pais vêm se ausentando de suas responsabilidades como tais, e transferindo para as crianças responsabilidades as quais não as cabem.
Quando nos deparamos com situações assim, acho que uma das primeiras coisas que se passam em nossa cabeça, é a possível causa dessas atitudes. Acho que o caminho realmente começa por aí, mas o que fazer depois que descobrimos onde e quando foi o estopim de tais atitudes?
Devemos então lembrar, que apesar de estarmos inseridos todos numa massa social, cada indivíduo difere do outro. Sendo assim, cada um reproduzirá ou conseguirá elaborar as situações conflitantes que viveu em sua vida de maneira diferente. Mas, um tanto de análises a parte, o que vejo ultimamente, e que muitas vezes me faz sabotar a parte em que reflito na causa de tal atitude, é o quanto os pais estão depositando em seus filhos responsabilidades que cabem a eles próprios.
É gritante o quanto crianças são vítimas de ofensas entre brigas conjugais e postas a todo momento num conflito psíquico que as rouba de toda sua infância e de toda a mágica e descoberta que circunda esta fase.
Crianças que a cada dia assumem o papel de cuidadoras, e pais que se ausentam de responsabilidades destinadas à eles. Uma grande e quase sempre (ou sempre) projeção no outro. Quantos aqui já não viram pais em situação de separação conjugal que depositaram nos filhos toda sua mágoa, sua raiva, seu inconformismo? Crianças que não são, e nem podem ser, recipientes de fracassos muitas vezes inerentes a um casal. Não muito longe disso, crianças de casamentos que persistem mas que insistem na transferência da culpa entre os companheiros.
Mais do que me perguntar o motivo de tais atitudes, acho que ficam mais gritantes as seguintes perguntas: Qual o tamanho do sofrimento desta criança? Quais os prejuízos que carregará consigo durante sua vida? Quais serão os momentos de sua infância que perderá e que não poderão mais retornar? Qual lacuna irá persistir?
Aquele que é frágil e indefeso é sempre o recipiente mais fácil para todas nossas frustrações, decepções e fracassos. A dor é tão grande que não cabe em nós, mas sim no outro. Superar é tão difícil e doloroso, que se torna mais prático que essa superação aconteça por outro. É sempre o "outro". Pena que a cada dia mais, este "outro" sejam nossas crianças, que muitas vezes crescem com idealizações equivocadas de relações e as reproduzem em suas vidas. Um ciclo quase interminável que acentua patologias, distancia as relações e encarece os afetos.
Pensar em como fomos criados, como superamos nossos conflitos e como reproduzimos isto em nossa vida é um passo muito importante para quebrarmos esse ciclo. Lembrarmos que as crianças são sim inocentes em relação à tudo aquilo que fazemos e sentimos, nos permite olhar mais para nossos atos e também permite que a mágica da infância seja proporcionada à elas sem violências desnecessárias.
Toda criança tem o direito de desfrutar da companhia de sua mãe ou de seu pai sem sofrer violência psicológica que a obrigue realizar uma escolha; de receber afeto e carinho de ambos, independente da situação conjugal; e de poder desfrutar das atribuições que lhe competem como CRIANÇA.
Talvez as ideias estejam um tanto quanto embaralhadas, mas é assim que me apresento hoje falando de um assunto que muito me incomoda. Penso que posso representar a confusão que acompanha tantos outros adultos que passaram por toda esta realidade.
Misturar a escrita com lembranças e afetos muitas vezes pode ter este resultado, mais sei o quanto este resultado também é aliviador.
Como gosto sempre de deixar uma indicação e acredito que isso nos ajude a refletir mais sobre o assunto trazido, deixo um filme que assisti recentemente chamado "Deus da Carnificina", que ilustra dois casais que se encontram para discutir sobre uma briga entre seus filhos. Pais superprotetores, relacionamentos abalados e transferência de culpas são realidades trazidas no filme, que é a reprodução de uma peça teatral já conhecida. Uma produção curta, mas que traz a dificuldade em assumir papéis e dividir responsabilidades entre companheiros.
Vale a pena utilizar da produção para refletir conflitos que se apresentam gritantes e crescentes em nossa sociedade e que precisam ser encarados com considerável preocupação, visando mudanças nos paradigmas culturais que corroboram para que estes conflitos persistam e sejam protagonistas nas relações parentais e conjugais, fortalecendo a isenção de responsabilidades e o encarecimento de afetos entre pais e filhos.
Informações sobre o filme:
Título original: Carnage
Duração: 80 minutos
Direção: Roman Polanski
Ano: 2011
País: EUA
Classificação: 14 anos
Sinopse: Os 80 minutos do longa se passam dentro do apartamento de Penélope e Michael, pais do garoto agredido pelo filho de Nancy e Alan durante uma briga num parque de Nova York. A fim de entender o que aconteceu, os quatro adultos resolvem se encontrar para uma conversa "amigável". Porém, apesar das intensões civilizadas, eles acabam se exaltando e a conversa toma rumos totalmente diferentes, resultando em discussões calorosas, xingamentos e a exposição do que há de pior em cada relacionamento.
Abç... Patrícia.
Quando nos deparamos com situações assim, acho que uma das primeiras coisas que se passam em nossa cabeça, é a possível causa dessas atitudes. Acho que o caminho realmente começa por aí, mas o que fazer depois que descobrimos onde e quando foi o estopim de tais atitudes?
Devemos então lembrar, que apesar de estarmos inseridos todos numa massa social, cada indivíduo difere do outro. Sendo assim, cada um reproduzirá ou conseguirá elaborar as situações conflitantes que viveu em sua vida de maneira diferente. Mas, um tanto de análises a parte, o que vejo ultimamente, e que muitas vezes me faz sabotar a parte em que reflito na causa de tal atitude, é o quanto os pais estão depositando em seus filhos responsabilidades que cabem a eles próprios.
É gritante o quanto crianças são vítimas de ofensas entre brigas conjugais e postas a todo momento num conflito psíquico que as rouba de toda sua infância e de toda a mágica e descoberta que circunda esta fase.
Crianças que a cada dia assumem o papel de cuidadoras, e pais que se ausentam de responsabilidades destinadas à eles. Uma grande e quase sempre (ou sempre) projeção no outro. Quantos aqui já não viram pais em situação de separação conjugal que depositaram nos filhos toda sua mágoa, sua raiva, seu inconformismo? Crianças que não são, e nem podem ser, recipientes de fracassos muitas vezes inerentes a um casal. Não muito longe disso, crianças de casamentos que persistem mas que insistem na transferência da culpa entre os companheiros.
Mais do que me perguntar o motivo de tais atitudes, acho que ficam mais gritantes as seguintes perguntas: Qual o tamanho do sofrimento desta criança? Quais os prejuízos que carregará consigo durante sua vida? Quais serão os momentos de sua infância que perderá e que não poderão mais retornar? Qual lacuna irá persistir?
Aquele que é frágil e indefeso é sempre o recipiente mais fácil para todas nossas frustrações, decepções e fracassos. A dor é tão grande que não cabe em nós, mas sim no outro. Superar é tão difícil e doloroso, que se torna mais prático que essa superação aconteça por outro. É sempre o "outro". Pena que a cada dia mais, este "outro" sejam nossas crianças, que muitas vezes crescem com idealizações equivocadas de relações e as reproduzem em suas vidas. Um ciclo quase interminável que acentua patologias, distancia as relações e encarece os afetos.
Pensar em como fomos criados, como superamos nossos conflitos e como reproduzimos isto em nossa vida é um passo muito importante para quebrarmos esse ciclo. Lembrarmos que as crianças são sim inocentes em relação à tudo aquilo que fazemos e sentimos, nos permite olhar mais para nossos atos e também permite que a mágica da infância seja proporcionada à elas sem violências desnecessárias.
Toda criança tem o direito de desfrutar da companhia de sua mãe ou de seu pai sem sofrer violência psicológica que a obrigue realizar uma escolha; de receber afeto e carinho de ambos, independente da situação conjugal; e de poder desfrutar das atribuições que lhe competem como CRIANÇA.
Talvez as ideias estejam um tanto quanto embaralhadas, mas é assim que me apresento hoje falando de um assunto que muito me incomoda. Penso que posso representar a confusão que acompanha tantos outros adultos que passaram por toda esta realidade.
Misturar a escrita com lembranças e afetos muitas vezes pode ter este resultado, mais sei o quanto este resultado também é aliviador.
Como gosto sempre de deixar uma indicação e acredito que isso nos ajude a refletir mais sobre o assunto trazido, deixo um filme que assisti recentemente chamado "Deus da Carnificina", que ilustra dois casais que se encontram para discutir sobre uma briga entre seus filhos. Pais superprotetores, relacionamentos abalados e transferência de culpas são realidades trazidas no filme, que é a reprodução de uma peça teatral já conhecida. Uma produção curta, mas que traz a dificuldade em assumir papéis e dividir responsabilidades entre companheiros.
Vale a pena utilizar da produção para refletir conflitos que se apresentam gritantes e crescentes em nossa sociedade e que precisam ser encarados com considerável preocupação, visando mudanças nos paradigmas culturais que corroboram para que estes conflitos persistam e sejam protagonistas nas relações parentais e conjugais, fortalecendo a isenção de responsabilidades e o encarecimento de afetos entre pais e filhos.
Informações sobre o filme:
Título original: Carnage
Duração: 80 minutos
Direção: Roman Polanski
Ano: 2011
País: EUA
Classificação: 14 anos
Sinopse: Os 80 minutos do longa se passam dentro do apartamento de Penélope e Michael, pais do garoto agredido pelo filho de Nancy e Alan durante uma briga num parque de Nova York. A fim de entender o que aconteceu, os quatro adultos resolvem se encontrar para uma conversa "amigável". Porém, apesar das intensões civilizadas, eles acabam se exaltando e a conversa toma rumos totalmente diferentes, resultando em discussões calorosas, xingamentos e a exposição do que há de pior em cada relacionamento.
Abç... Patrícia.
terça-feira, 7 de maio de 2013
Transformando e contando histórias
Pensando na publicação de hoje e no que poderia trazer, me lembrei de outro filme muito bom que assisti, baseado numa história real, e me perguntei porque esta história foi lembrada por mim neste dia.
Desde que comecei a trabalhar na área da assistência social, fui privilegiada por compartilhar conhecimento com uma equipe muito empenhada e interessada, que busca a todo momento questionar as condições humanas e principalmente as questões sociais. Sendo assim, vários momentos são divididos em equipe e muitas reflexões se perpetuam durante nosso trabalho.
Quando me lembrei do filme trazido hoje, me lembrei também o quanto ele me fez refletir na realidade em que atuo e que está posta em nossa sociedade.
O filme é brasileiro e chama-se "O Contador de Histórias", que conta a história de um menino nascido em uma família grande e muito pobre. Por estes fatores, seus pais não tinham dinheiro para colocar a comida na mesa e muito menos lhes oferecerem uma educação digna.
Eis então, que naquela época, o governo inaugura uma instituição chamada "FEBEM" (Fundação Estadual do Bem Estar do Menor), que prometia às famílias um local onde se oferecia estudo, moradia, alimentação e uma futura profissão, atraindo assim muitas famílias pobres economicamente, mas ricas em esperança de um futuro melhor para suas crianças.
E lá se foi nosso menino protagonista, com a esperança de sair da instituição um "Doutor".
Assim como todo sabemos, este não foi o destino da FEBEM (hoje chamada de Fundação CASA que acolhe menores em medida sócio-educativa) e acredito que muito menos sua função desempenhada naquela época. Com um propósito fortemente higienista, o governo tirou das grandes favelas muitas crianças que tornavam maior o índice populacional, para lhes oferecerem uma condição de vida menos digna daquela que viviam ao lado de suas famílias.
Crianças que por serem pobres carregavam consigo o grande estigma de não merecerem um tratamento e um futuro melhores, sendo postas longe do convívio familiar, do afeto ou do carinho que uma mãe poderia lhes oferecer sem precisar de dinheiro.
E assim vamos conhecendo a história de Roberto, uma criança encantadora que cede ao descaso e à pressão governamental e cai na marginalidade.
Não irei discorrer toda a história do filme, até porque irei roubar o gosto da descoberta e do prazer àqueles que ainda não conhecem. Mas a trago pois Roberto foi mais uma vítima da grande falha do Estado que faz de nossas crianças, seres totalmente à margem da sociedade que precisam roubar e extrapolar limites para talvez serem enxergadas, e que carregam consigo todo o senso comum, responsável por julgá-los por seus atos, mas que não conhece sua história ou muito menos participa de uma luta por uma realidade diferente.
Roberto pode mudar e ter uma vida diferente pois teve uma oportunidade, e cresce para contar sua história ao redor do mundo. Um grande fato que nos mostra que muitas vezes estas crianças e adolescentes são vítimas da falta de oportunidades que os "perseguem" no decorrer de sua vida. Julgá-los e estigmatizá-los definitivamente está num caminho mais fácil e indolor, pois penso que na sociedade narcísica em que vivemos, seja doloroso demais ver que iguais passam por condições tão sub-humanas de sobrevivência e de sentimentos e emoções.
Porém, este caminho mais difícil e doloroso talvez seja o que nos permite olhar e enxergar o outro como pessoa de direitos e merecedora de oportunidades. E creio que este seja o caminho que nos preencha de voz e determinação para questionar um governo que de tão omisso e manipulador, consegue transformar aquele que foi desfavorecido em toda sua vida, no desfavorecedor que aterroriza e ameaça nossa sociedade.
Agora deixo com vocês o prazer em descobrir esta história e de formular sua própria opinião.
Informações sobre o filme:
Título original: O Contador de Histórias
Duração: 100 minutos
Gênero: Drama
Direção: Luiz Villaça
Ano: 2009
Saiba mais: Estatuto da Criança e do Adolescente de 1990
Abç... Patrícia.
Desde que comecei a trabalhar na área da assistência social, fui privilegiada por compartilhar conhecimento com uma equipe muito empenhada e interessada, que busca a todo momento questionar as condições humanas e principalmente as questões sociais. Sendo assim, vários momentos são divididos em equipe e muitas reflexões se perpetuam durante nosso trabalho.
Quando me lembrei do filme trazido hoje, me lembrei também o quanto ele me fez refletir na realidade em que atuo e que está posta em nossa sociedade.
O filme é brasileiro e chama-se "O Contador de Histórias", que conta a história de um menino nascido em uma família grande e muito pobre. Por estes fatores, seus pais não tinham dinheiro para colocar a comida na mesa e muito menos lhes oferecerem uma educação digna.
Eis então, que naquela época, o governo inaugura uma instituição chamada "FEBEM" (Fundação Estadual do Bem Estar do Menor), que prometia às famílias um local onde se oferecia estudo, moradia, alimentação e uma futura profissão, atraindo assim muitas famílias pobres economicamente, mas ricas em esperança de um futuro melhor para suas crianças.
E lá se foi nosso menino protagonista, com a esperança de sair da instituição um "Doutor".
Assim como todo sabemos, este não foi o destino da FEBEM (hoje chamada de Fundação CASA que acolhe menores em medida sócio-educativa) e acredito que muito menos sua função desempenhada naquela época. Com um propósito fortemente higienista, o governo tirou das grandes favelas muitas crianças que tornavam maior o índice populacional, para lhes oferecerem uma condição de vida menos digna daquela que viviam ao lado de suas famílias.
Crianças que por serem pobres carregavam consigo o grande estigma de não merecerem um tratamento e um futuro melhores, sendo postas longe do convívio familiar, do afeto ou do carinho que uma mãe poderia lhes oferecer sem precisar de dinheiro.
E assim vamos conhecendo a história de Roberto, uma criança encantadora que cede ao descaso e à pressão governamental e cai na marginalidade.
Não irei discorrer toda a história do filme, até porque irei roubar o gosto da descoberta e do prazer àqueles que ainda não conhecem. Mas a trago pois Roberto foi mais uma vítima da grande falha do Estado que faz de nossas crianças, seres totalmente à margem da sociedade que precisam roubar e extrapolar limites para talvez serem enxergadas, e que carregam consigo todo o senso comum, responsável por julgá-los por seus atos, mas que não conhece sua história ou muito menos participa de uma luta por uma realidade diferente.
Roberto pode mudar e ter uma vida diferente pois teve uma oportunidade, e cresce para contar sua história ao redor do mundo. Um grande fato que nos mostra que muitas vezes estas crianças e adolescentes são vítimas da falta de oportunidades que os "perseguem" no decorrer de sua vida. Julgá-los e estigmatizá-los definitivamente está num caminho mais fácil e indolor, pois penso que na sociedade narcísica em que vivemos, seja doloroso demais ver que iguais passam por condições tão sub-humanas de sobrevivência e de sentimentos e emoções.
Porém, este caminho mais difícil e doloroso talvez seja o que nos permite olhar e enxergar o outro como pessoa de direitos e merecedora de oportunidades. E creio que este seja o caminho que nos preencha de voz e determinação para questionar um governo que de tão omisso e manipulador, consegue transformar aquele que foi desfavorecido em toda sua vida, no desfavorecedor que aterroriza e ameaça nossa sociedade.
Agora deixo com vocês o prazer em descobrir esta história e de formular sua própria opinião.
Informações sobre o filme:
Título original: O Contador de Histórias
Duração: 100 minutos
Gênero: Drama
Direção: Luiz Villaça
Ano: 2009
Saiba mais: Estatuto da Criança e do Adolescente de 1990
Abç... Patrícia.
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Reflexão
domingo, 5 de maio de 2013
Estamos de volta!
E depois de mais um período de "descanso" o "Penso, logo existo?" está de volta e terá publicações todas as terças-feiras! (o que não impossibilita publicações extras durante a semana!)
Muito tempo se passou, e muitas experiências aconteceram, o que irá agregar ainda mais para o blog!
Para marcar o retorno, começo com uma indicação de filme/documentário chamado "Nascidos em Bordéis" vencedor do Oscar de Melhor Documentário, que conta a história de crianças indianas, filhas de prostitutas, que têm os bordéis onde suas mães trabalham como moradia. Lá, são encontradas pelos documentaristas, para os quais contam sua história de vida e ganham máquinas fotográficas, registrando o mundo a sua volta com olhares bastante peculiares.
Entre imposições culturais e familiares, vamos descobrindo o que a fotografia possibilitou de mudanças na vida de cada uma delas, e como isso influenciou no destino de todas. É interessante também os relatos de crianças que além de todas as adversidades do meio em que vivem, conseguem manifestar a espontaneidade infantil e uma visão crítica e sincera daquilo que vivenciam.
Para quem gosta de estudos sociais e fotografia, o filme é um prato cheio! Vale a pena!
Sinopse: Este ganhador do Oscar, mostra a vida de crianças do bairro da Luz Vermelha, em Calcutá. O aparente enriquecimento da Índia deixa de lados os menos favorecidos. Porém, ainda há esperanças. Os documentaristas Zana Briski e Ross Kauffman procuram essas crianças e munido de câmeras fotográficas pede para elas fazerem retratos de tudo que lhes chamam a atenção. Os resultados são emocionantes E enquanto as crianças vão descobrindo essa nova forma de expressar, os cineastas lutam para poder dar mais esperança, para as quais a pobreza é a maior ameaça à realização dos sonhos.
Muito tempo se passou, e muitas experiências aconteceram, o que irá agregar ainda mais para o blog!
Para marcar o retorno, começo com uma indicação de filme/documentário chamado "Nascidos em Bordéis" vencedor do Oscar de Melhor Documentário, que conta a história de crianças indianas, filhas de prostitutas, que têm os bordéis onde suas mães trabalham como moradia. Lá, são encontradas pelos documentaristas, para os quais contam sua história de vida e ganham máquinas fotográficas, registrando o mundo a sua volta com olhares bastante peculiares.
Entre imposições culturais e familiares, vamos descobrindo o que a fotografia possibilitou de mudanças na vida de cada uma delas, e como isso influenciou no destino de todas. É interessante também os relatos de crianças que além de todas as adversidades do meio em que vivem, conseguem manifestar a espontaneidade infantil e uma visão crítica e sincera daquilo que vivenciam.
Para quem gosta de estudos sociais e fotografia, o filme é um prato cheio! Vale a pena!
Informações sobre o documentário:
Título Original: Born Into Brothels
Duração: 85 minutos
Gênero: Documentário
Direção: Zana Briski / Ross Kauffman
Ano: 2004
País de Origem: EUA
Sinopse: Este ganhador do Oscar, mostra a vida de crianças do bairro da Luz Vermelha, em Calcutá. O aparente enriquecimento da Índia deixa de lados os menos favorecidos. Porém, ainda há esperanças. Os documentaristas Zana Briski e Ross Kauffman procuram essas crianças e munido de câmeras fotográficas pede para elas fazerem retratos de tudo que lhes chamam a atenção. Os resultados são emocionantes E enquanto as crianças vão descobrindo essa nova forma de expressar, os cineastas lutam para poder dar mais esperança, para as quais a pobreza é a maior ameaça à realização dos sonhos.
Não recomendado para menores de 10 anos.
Abç... Patrícia.
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Cinema,
Fotografia
sexta-feira, 6 de julho de 2012
Mas que puxa!
Ontem terminei de ler o primeiro volume da coleção "Peanuts Completo - Diárias e Dominicais 1950 a 1952" de Charles M. Schulz. A coleção possui 5 volumes (lançados no Brasil), os quais nos trazem as tiras feitas por Schulz desde o início da turma do Charlie Brown.
O início da turma começa com apenas 4 personagens: Charlie Brown, Patty, Shermy e Snoop. No decorrer das tiras mais personagens vão surgindo, como Violet, Schroeder, Linus e Lucy. Aos poucos a turma vai se constituindo.
Desde de pequena gostei muito da "turma do Snoopy" (engraçado como o cachorro era o maior referencial da turma, pelo mesmo pra mim!), mas lendo a história do autor, descobrimos que a tira do Charlie Brown não foi feita para as crianças! Acredito que o fato do cachorro estar sempre associado a produtos de higiene infantil, crescemos achando que a turma do Snoopy era apenas para crianças. O fato de ser um desenho também nos remete à isso, quando pensamos que isso só se destina à elas.
Porém, lendo as tiras, e com maturidade, percebemos que o humor contido nela não é realmente para estas, e sim para adultos. Isso foi uma das coisas mais batalhadas pelo desenhista: entender as tiras como um humor para adultos. Entretanto, a mídia e o comércio fizeram da turma uma maneira de ganhar dinheiro, e sabemos que os produtos infantis são bons nisso.
No final do livro temos contato com uma "micro-biografia" de Schulz, e com uma entrevista feita com ele em 1987, onde ele fala um pouco de si, das tiras, de outros desenhistas, etc. e podemos perceber o quanto a obra é um reflexo dele mesmo.
Menino sozinho, tímido, sem amigos e um sentimento de rejeição acompanham ambos. É curioso e gostoso quando você pode analisar uma obra assim. Não sou conhecedora de cartoons ou tiras, ou nada do gênero. Mas o gostoso mesmo é poder perceber a obra e seu autor. O quanto Charlie Brown e sua turma reflete aquilo que Schulz sentia desde pequeno.
Charlie Brown tem dificuldades com amigos, dificuldades em conquistar meninas, e isso também é assumido por Schulz em sua vida pessoal no final do livro. É intrigante como através da arte uma pessoa realmente pode se expressar, e fazer daquilo a sua voz.
Com um humor um pouco ácido, Schulz responde as perguntas e diz nunca ter imaginado que "Peanuts" faria tanto sucesso assim, embora soubesse que fazia tiras de qualidade. Penso, que um dos grandes motivos para a tira ter feito tanto sucesso é a identificação que aconteceu entre a obra e os leitores. Uma das citações de David Michaelis ao final do livro, deixa para mim muito claro esta identificação:
Um personagem que trazia problemas reais, vividos por sua pessoa real, soubesse Schulz ou não que estava fazendo isso!
Sempre gostei de desenhos (animados ou não), e acho que erra aquele que pensa que isso se destina apenas às crianças. Os desenhos são muito ricos, e sabemos que muitos deles não possuem humores para crianças.
Penso que é uma das maneiras de uma pessoa se comunicar e levar às outras seus sentimentos, suas experiências, sua crítica, etc.
É levar através do humor questões que precisam ser pensadas!
Ou também, aquilo que não conseguimos dizer, mas expressamos através do desenho!
Pensar também num cachorro que quebra todas as regras da normalidade e luta contra o Barão Vermelho, pensa e é sarcástico, para mim, é um dos bônus da arte! É como alguém que está "de fora" nos dois sentidos: vê tudo aquilo que não vemos, e pode viver fora do padrão da normalidade o qual é exigido de nós todos os dias. Sempre gostei dessas possibilidades destinadas ao Snoopy!
Sou suspeita em falar da turma do Charlie Brown, mas venho aqui fazer a indicação desta coleção! É impossível não se identificar com aquele menino que nos remete à tantas situações de nossa vida que nos colocam em questionamento, que nos deixa pra baixo ou que nos dá esperança.
Uma criança que traz coisas que vários de nós passamos na infância, e que nos faz pensar naquilo que nos transformamos hoje, pois, somos aquilo que trouxemos dela.
Vale a pena se identificar com Charlie, ou Minduim, assim prefiro, como a Patty Pimentinha o chama (acho que também rola uma identificação nisso! rs) para conhecer um pouco daquele que vos fala, o autor. É muito bom entrar em contato com toda essa sincronicidade e perceber o quanto nos representamos através de nossos atos, sejam eles quais forem. Nós, psicólogos, aprendemos que a fala "cura", mas acredito que a fala não seja apenas verbal, ela transcende o verbal. E a arte como a música, a escrita, o desenho podem ser meios totalmente efetivos de autopercepção e transformação. Além de serem belos!
E a indicação vale a pena também pela qualidade do desenho e das estórias!
Informações sobre a coleção:
Peanuts Completo
Por: Charles M. Schulz
5 volumes (lançados no Brasil): 1950 a 1952; 1953 a 1954; 1955 a 1956; 1957 a 1958 e 1959 a 1960.
Editora: L & PM
Abç... Patrícia.
O início da turma começa com apenas 4 personagens: Charlie Brown, Patty, Shermy e Snoop. No decorrer das tiras mais personagens vão surgindo, como Violet, Schroeder, Linus e Lucy. Aos poucos a turma vai se constituindo.
Desde de pequena gostei muito da "turma do Snoopy" (engraçado como o cachorro era o maior referencial da turma, pelo mesmo pra mim!), mas lendo a história do autor, descobrimos que a tira do Charlie Brown não foi feita para as crianças! Acredito que o fato do cachorro estar sempre associado a produtos de higiene infantil, crescemos achando que a turma do Snoopy era apenas para crianças. O fato de ser um desenho também nos remete à isso, quando pensamos que isso só se destina à elas.
Porém, lendo as tiras, e com maturidade, percebemos que o humor contido nela não é realmente para estas, e sim para adultos. Isso foi uma das coisas mais batalhadas pelo desenhista: entender as tiras como um humor para adultos. Entretanto, a mídia e o comércio fizeram da turma uma maneira de ganhar dinheiro, e sabemos que os produtos infantis são bons nisso.
No final do livro temos contato com uma "micro-biografia" de Schulz, e com uma entrevista feita com ele em 1987, onde ele fala um pouco de si, das tiras, de outros desenhistas, etc. e podemos perceber o quanto a obra é um reflexo dele mesmo.
Menino sozinho, tímido, sem amigos e um sentimento de rejeição acompanham ambos. É curioso e gostoso quando você pode analisar uma obra assim. Não sou conhecedora de cartoons ou tiras, ou nada do gênero. Mas o gostoso mesmo é poder perceber a obra e seu autor. O quanto Charlie Brown e sua turma reflete aquilo que Schulz sentia desde pequeno.
Charlie Brown tem dificuldades com amigos, dificuldades em conquistar meninas, e isso também é assumido por Schulz em sua vida pessoal no final do livro. É intrigante como através da arte uma pessoa realmente pode se expressar, e fazer daquilo a sua voz.
Charles M. Schulz
Com um humor um pouco ácido, Schulz responde as perguntas e diz nunca ter imaginado que "Peanuts" faria tanto sucesso assim, embora soubesse que fazia tiras de qualidade. Penso, que um dos grandes motivos para a tira ter feito tanto sucesso é a identificação que aconteceu entre a obra e os leitores. Uma das citações de David Michaelis ao final do livro, deixa para mim muito claro esta identificação:
"Charlie Brown foi uma grande inovação no mundo dos quadrinhos: uma pessoa de verdade, com a psique e os problemas de uma pessoa de verdade. (...) Eles foram os últimos a serem criados sem televisão, como Schulz tinha sido, e liam as reflexões de Charlie Brown como grandes questões existenciais - paradoxos sobre a condição humana em forma de quadrinhos."
Um personagem que trazia problemas reais, vividos por sua pessoa real, soubesse Schulz ou não que estava fazendo isso!
Sempre gostei de desenhos (animados ou não), e acho que erra aquele que pensa que isso se destina apenas às crianças. Os desenhos são muito ricos, e sabemos que muitos deles não possuem humores para crianças.
Penso que é uma das maneiras de uma pessoa se comunicar e levar às outras seus sentimentos, suas experiências, sua crítica, etc.
É levar através do humor questões que precisam ser pensadas!
Ou também, aquilo que não conseguimos dizer, mas expressamos através do desenho!
Pensar também num cachorro que quebra todas as regras da normalidade e luta contra o Barão Vermelho, pensa e é sarcástico, para mim, é um dos bônus da arte! É como alguém que está "de fora" nos dois sentidos: vê tudo aquilo que não vemos, e pode viver fora do padrão da normalidade o qual é exigido de nós todos os dias. Sempre gostei dessas possibilidades destinadas ao Snoopy!
Sou suspeita em falar da turma do Charlie Brown, mas venho aqui fazer a indicação desta coleção! É impossível não se identificar com aquele menino que nos remete à tantas situações de nossa vida que nos colocam em questionamento, que nos deixa pra baixo ou que nos dá esperança.
Uma criança que traz coisas que vários de nós passamos na infância, e que nos faz pensar naquilo que nos transformamos hoje, pois, somos aquilo que trouxemos dela.
Vale a pena se identificar com Charlie, ou Minduim, assim prefiro, como a Patty Pimentinha o chama (acho que também rola uma identificação nisso! rs) para conhecer um pouco daquele que vos fala, o autor. É muito bom entrar em contato com toda essa sincronicidade e perceber o quanto nos representamos através de nossos atos, sejam eles quais forem. Nós, psicólogos, aprendemos que a fala "cura", mas acredito que a fala não seja apenas verbal, ela transcende o verbal. E a arte como a música, a escrita, o desenho podem ser meios totalmente efetivos de autopercepção e transformação. Além de serem belos!
E a indicação vale a pena também pela qualidade do desenho e das estórias!
Informações sobre a coleção:
Peanuts Completo
Por: Charles M. Schulz
5 volumes (lançados no Brasil): 1950 a 1952; 1953 a 1954; 1955 a 1956; 1957 a 1958 e 1959 a 1960.
Editora: L & PM
Abç... Patrícia.
sexta-feira, 15 de junho de 2012
O Centenário Pornográfico
Me lembro da primeira vez que tive contato com uma obra de Nelson Rodrigues. Tinha entre 18 e 19 anos (me recordo de um primeiro contato com esta idade), que não sei se foi tardio ou não, porém sei que foi marcante. Ainda trabalhava na escola onde havia me formado, e numa hora ociosa de almoço, resolvi visitar o acervo da biblioteca que estava todo bagunçado, dentro de uma sala de aula, por conta da mudança que estavam fazendo. E lá estavam todos os livros, bagunçados, fora de ordem, misturados com livros de literatura, história, matemática, etc. quando procurando algo para ler num curto prazo de 30 minutos, uma capa me chama muito a atenção.
Um homem com seu cigarro, numa obra chamada "Vestido de Noiva", e pensei: "Gostei! Vou ler até meu tempo de intervalo acabar." e foi quando sentei-me numa cadeira e comecei a folhear o início do livro, lendo com toda minha vontade. Quando meu intervalo chegou ao fim, não era possível deixar aquele livro onde estava e voltar ao trabalho, senti que precisava levá-lo para casa para consumi-lo até o final, e assim o fiz.
A linguagem do livro tomou minha atenção do início ao fim, quando o autor falava de conflitos familiares, casamentos infiéis e bordéis, fazendo minha imaginação se sentir livre o suficiente para viajar com ele. Nada de pudores, e tudo na realidade, como a vida necessita ser. Sempre gostei de autores assim.
E foi com esta forma de escrever que pensei: "Gostei desse "cara"!". Foi o início de um romance.
Sempre gostei de livros, desde menina. Claro que a frequência aumentou durante o passar dos anos, mas era incrível o quanto um autor conseguia me conquistar ou não na primeira vez. Acho que até hoje sou assim: ou gosto de primeira, ou não mudo de opinião assim tão fácil. Nelson foi vitorioso na primeira impressão, e ganhou assim, mais uma admiradora!
Gosto de escritores que são suficientes, que acreditam naquilo que sentem, e que o fazem sem o menor problema.
Eis que anos depois, fui até uma peça chamada "As Noivas de Nelson", adaptação da obra "A vida como ela é...". Sozinha no auditório, me deliciava com todas as noivas de Nelson, e com todas as estórias que fazia cada um se identificar. No meio de tantas estórias, algumas citações de Nelson (narradas por ele mesmo) eram reproduzidas no teatro enquanto o cenário era transformado, e foi quando mais uma vez, Nelson me falou particularmente, quando citou um trecho de "Sexo é para vira-latas", e senti mais uma vez, que estava ouvindo alguém muito agradável me falar.
Neste ano, não apenas de nosso querido Drummond (outro com o qual partilhei de emoções quando li), se comemora o centenário de Nelson Rodrigues. Uma biografia de sua vida já foi intitulada de "O Anjo Pornográfico" (1992), já foi classificado como o autor que escrevia de amor e morte, das tragédias cariocas, de obras psicológicas e mais... Eu diria que ele escreveu aquilo que desejava escrever. Foi claro, sincero, sem pudor e sem censura. Foi o escritor que me permitiu olhar um outro tipo de literatura, talvez. Algo mais sujo e ao mesmo tempo verdadeiro. Diria que ele foi brilhante o suficiente pra chegar até as pessoas usando-se da realidade, e não do delírio.
Em comemoração ao seu centenário, um especial no site "Educar para Crescer" foi produzido, onde vários escritores vão falar das obras e da vida de Nelson, aproximando pessoas que já têm, ou ainda não, contato com este escritor. Citações foram feitas e até um teste desenvolvido como uma brincadeira para ver o quanto você sabe sobre Nelson.
Num ano lindo, onde se comemora o centenário de dois grandes escritores, venho até aqui para compartilhar um meio de contato com este dramaturgo que me encantou, sem pretensão nenhuma, quando o li pela primeira vez. Foi algo do qual nunca me esquecerei. Sei também que outros também sentiram o mesmo, e muitos ainda irão sentir. É como se um estranho desconhecido lhe falasse pessoalmente desde a primeira frase, até o último parágrafo de sua obra, como se já conhecesse tudo aquilo que há guardado dentro de você! Ler obras assim é entrar em contato com você de uma maneira extremamente turbulenta e reveladora, é algo que te faz sentir descoberta por si mesma, quando as noivas, as prostitutas e todas as mulheres falam por você. É se identificar através de alguém que parece que você já conhece desde que nasceu. É ouvir o que não se quer ouvir, ler o que não se quer ler e desejar aquilo que sempre se desejou.
Uma ambivalência extremamente deliciosa!
Abç... Patrícia.
PS: Finalizo a postagem com o trecho de "Sexo é para vira-latas" acima citado.
Um homem com seu cigarro, numa obra chamada "Vestido de Noiva", e pensei: "Gostei! Vou ler até meu tempo de intervalo acabar." e foi quando sentei-me numa cadeira e comecei a folhear o início do livro, lendo com toda minha vontade. Quando meu intervalo chegou ao fim, não era possível deixar aquele livro onde estava e voltar ao trabalho, senti que precisava levá-lo para casa para consumi-lo até o final, e assim o fiz.
A linguagem do livro tomou minha atenção do início ao fim, quando o autor falava de conflitos familiares, casamentos infiéis e bordéis, fazendo minha imaginação se sentir livre o suficiente para viajar com ele. Nada de pudores, e tudo na realidade, como a vida necessita ser. Sempre gostei de autores assim.
E foi com esta forma de escrever que pensei: "Gostei desse "cara"!". Foi o início de um romance.
Sempre gostei de livros, desde menina. Claro que a frequência aumentou durante o passar dos anos, mas era incrível o quanto um autor conseguia me conquistar ou não na primeira vez. Acho que até hoje sou assim: ou gosto de primeira, ou não mudo de opinião assim tão fácil. Nelson foi vitorioso na primeira impressão, e ganhou assim, mais uma admiradora!
Gosto de escritores que são suficientes, que acreditam naquilo que sentem, e que o fazem sem o menor problema.
Eis que anos depois, fui até uma peça chamada "As Noivas de Nelson", adaptação da obra "A vida como ela é...". Sozinha no auditório, me deliciava com todas as noivas de Nelson, e com todas as estórias que fazia cada um se identificar. No meio de tantas estórias, algumas citações de Nelson (narradas por ele mesmo) eram reproduzidas no teatro enquanto o cenário era transformado, e foi quando mais uma vez, Nelson me falou particularmente, quando citou um trecho de "Sexo é para vira-latas", e senti mais uma vez, que estava ouvindo alguém muito agradável me falar.
Cena da peça "As Noivas de Nelson" da obra "A vida como ela é..."
Neste ano, não apenas de nosso querido Drummond (outro com o qual partilhei de emoções quando li), se comemora o centenário de Nelson Rodrigues. Uma biografia de sua vida já foi intitulada de "O Anjo Pornográfico" (1992), já foi classificado como o autor que escrevia de amor e morte, das tragédias cariocas, de obras psicológicas e mais... Eu diria que ele escreveu aquilo que desejava escrever. Foi claro, sincero, sem pudor e sem censura. Foi o escritor que me permitiu olhar um outro tipo de literatura, talvez. Algo mais sujo e ao mesmo tempo verdadeiro. Diria que ele foi brilhante o suficiente pra chegar até as pessoas usando-se da realidade, e não do delírio.
Em comemoração ao seu centenário, um especial no site "Educar para Crescer" foi produzido, onde vários escritores vão falar das obras e da vida de Nelson, aproximando pessoas que já têm, ou ainda não, contato com este escritor. Citações foram feitas e até um teste desenvolvido como uma brincadeira para ver o quanto você sabe sobre Nelson.
Num ano lindo, onde se comemora o centenário de dois grandes escritores, venho até aqui para compartilhar um meio de contato com este dramaturgo que me encantou, sem pretensão nenhuma, quando o li pela primeira vez. Foi algo do qual nunca me esquecerei. Sei também que outros também sentiram o mesmo, e muitos ainda irão sentir. É como se um estranho desconhecido lhe falasse pessoalmente desde a primeira frase, até o último parágrafo de sua obra, como se já conhecesse tudo aquilo que há guardado dentro de você! Ler obras assim é entrar em contato com você de uma maneira extremamente turbulenta e reveladora, é algo que te faz sentir descoberta por si mesma, quando as noivas, as prostitutas e todas as mulheres falam por você. É se identificar através de alguém que parece que você já conhece desde que nasceu. É ouvir o que não se quer ouvir, ler o que não se quer ler e desejar aquilo que sempre se desejou.
Uma ambivalência extremamente deliciosa!
Abç... Patrícia.
PS: Finalizo a postagem com o trecho de "Sexo é para vira-latas" acima citado.
"(...) No dia em que o sujeito perder a infinita complexidade do amor, cairá automaticamente de quatro, para sempre. Sexo como tal, e estritamente sexo, vale para os gatos de telhado e os vira-latas de portão. Ao passo que no homem o sexo é amor. Envergonha-me estar repetindo o óbvio. O homem começou a própria desumanização quando separou o sexo do amor. (...) São as vítimas do sexo sem amor. Tão simples enxergar o óbvio ululante. Devia ser não educação sexual, mas educação para o amor, simplesmente para o amor. E o homem talvez aprendesse a amar eternamente." (Nelson Rodrigues).
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quinta-feira, 7 de junho de 2012
Poemas inéditos de Drummond
Cá estou novamente, depois de meses...
Mesmo o sono terrível e as atualizações longas que precisei fazer no blog, não podia dormir sem compartilhar um dos poemas de Drummond que será lançado ainda em junho no livro "Os 25 Poemas da Triste Alegria".
Tive contato com 6 dos poemas inéditos através da revista BRAVO! que trouxe esta reportagem como tema na edição de junho.
Reproduzirei um dos poemas exatamente como foi escrito, em 1924, de um Drummond ainda jovem, com 22 anos de idade.
E como é bom retornar, pelo chamado de Drummond!
Mesmo o sono terrível e as atualizações longas que precisei fazer no blog, não podia dormir sem compartilhar um dos poemas de Drummond que será lançado ainda em junho no livro "Os 25 Poemas da Triste Alegria".
Tive contato com 6 dos poemas inéditos através da revista BRAVO! que trouxe esta reportagem como tema na edição de junho.
Reproduzirei um dos poemas exatamente como foi escrito, em 1924, de um Drummond ainda jovem, com 22 anos de idade.
E como é bom retornar, pelo chamado de Drummond!
Gravado Numa Parede
Saber que tu não virás nunca encher de rosas o meu quarto,
encher de belleza a minha vida...
e continuar á espera de tua graça dolente e sobrenatural,
continuar á espera, de mãos vazias...
Saber que não partirás o meu pão, que não beberemos juntos,
ao jantar, um pouco d'aquelle amavel e grato vinho velho,
que não accenderás a minha lampada,
que o piano não possuirá os teus dedos...
Saber tudo isso, o impossivel e o irremediavel
de tudo isso... e continuar sonhando inultimente.
Ah! Por que não virás encher de rosas o meu quarto?
Ao menos,
vem encher-me de lagrimas os olhos.
Carlos Drummond de Andrade
Abç... Patrícia.
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