terça-feira, 10 de maio de 2011

Romaria, pros meus (ou seus) pecados.

Provavelmente até terminar de ler o livro de poemas de Carlos Drummond de Andrade, algumas eu estarei colocando aqui, porque me chamam a atenção.
Ontem li o "Romaria" onde ele fala dos homens que pedem à Jesus coisas boas, mesmo com todas as coisas ruins que fazem. Isso também me fez recordar aquilo que escrevi na publicação "Até onde vai nossa tolerância?" onde disse que o ser humano se sente menos culpado por seus atos, quando alguém é mais maldoso do que ele, e que também aquilo que quero se sobrepõe aos valores, meus e seus. Me fez também pensar no recente fato da morte de Bin Laden, onde todos os americanos foram às ruas para comemorar a morte de uma pessoa. Mas para eles, nada mais justo, "matamos aquele que matou nosso povo, Deus irá nos perdoar."
E assim seguimos, sempre achando que a nossa "cruz" é maior do que qualquer pessoa, independentemente de nossos atos desprezíveis.
Segue o poema de Drummond:

Romaria

Os romeiros sobem a ladeira
cheia de espinhos, cheia de pedras,
sobem a ladeira que leva a Deus
e vão deixando culpas no caminho.

Os sinos tocam, chamam os romeiros:
Vinde lavar os vossos pecados.
Já estamos puros, sino, obrigados,
mas trazemos flores, prendas e rezas.

No alto do morro chega a procissão.
Um leproso de opa empunha o estandarte.
As coxas das romeiras brincam no vento.
Os homens cantam, cantam sem parar.

Jesus no lenho expira magoado.
Faz tanto calor, há tanta algazarra.
Nos olhos do santo há sangue que escorre.
Ninguém não percebe, o dia é de festa.

No adro da igreja há pinga, café,
imagens, fenômenos, baralhos, cigarros
e um sol imenso que lambuza de ouro
o pó das feridas e o pó das muletas.

Meu Bom Jesus que tudo podeis,
humildemente te peço uma graça.
Sarai-me, Senhor, e não desta lepra,
do amor que eu tenho e que ninguém me tem.

Senhor, meu amo, dai-me dinheiro,
muito dinheiro para eu comprar
aquilo que é caro mas é gostoso
e na minha terra ninguém não possui.

Jesus meu Deus pregado na cruz,
me dá coragem pra eu matar
um que me amola de dia e de noite
e diz gracinhas a minha mulher.

Jesus Jesus piedade de mim.
Ladrão eu sou mas não sou ruim não.
Por que me perseguem não posso dizer.
Não quero ser preso, Jesus ó meu santo.

Os romeiros pedem com os olhos,
pedem com a boca, pedem com as mãos.
Jesus já cansado de tanto pedido
dorme sonhando com outra humanidade.

Abç... Patrícia.

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