sexta-feira, 13 de maio de 2011

Sem Vestígios

(Texto publicado originalmente no extinto blog "Zine Pasárgada")



Para quem gosta e se interessa pela história do Brasil, mais precisamente pelo período da Ditadura Militar, o livro "Sem Vestígios" (2008) traz histórias importantes do início da resistência, desde a Guerrilha do Araguaia, até as manifestações nas grandes cidades. O livro é escrito baseado nos relatos de um agente secreto militar já aposentado, que decide revelar o que soube e o que viu pois diz ser muito difícil e doloroso conviver com estas lembranças. Desde acontecimentos que não foram divulgados, à fotos famosas sobre momentos importantes da luta contra a Ditadura Militar.

Há também um vídeo feito em um dossiê sobre a Ditadura pela emissora Globo News, onde o General Leônidas, responsável pelo DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna) do Rio de Janeiro e ex-ministro do Exército Brasileiro é entrevistado e dá a versão militar dos fatos.

São contrastes fortes sobre um mesmo período onde cada um tinha sua ideologia política.

Esse período ditatorial do nosso país até hoje tem grande repercussão. Ainda muitos não sabem o que realmente aconteceu com seus familiares ou amigos, devido à arquivos ainda confidenciais. Também no livro, o militar aposentado relata que a polícia não guardava provas daquilo que fazia, para que isso um dia não viesse à tona e fossem punidos. Porém, muitos oficiais por vaidade de seus atos, registraram momentos e informações que podem revelar qual o destino de militantes que sumiram, desde o Araguaia.

A OAB do Rio de Janeiro há tempos vem divulgando uma campanha de abaixo-assinado para a abertura dos arquivos. Quem se interessar, é só acessar o link, assinar e poder ajudar as famílias que ainda procuram seus entes.
CAMPANHA PELA MEMÓRIA E PELA VERDADE! http://www.oab-rj.org.br/forms/abaixoassinado.jsp

Mais informações sobre o livro:
Sem Vestígios - Revelações de um Agente Secreto da Ditadura Militar Brasileira
Autor: Tais Morais
Editora: Geração Editorial
Ano Edição: 2008

Abç... Patrícia.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Estradas são feitas de escolhas.


Recentemente recebi em sala de aula de um querido professor, o Manual de Estágio do Curso de Psicologia. Não saberei especificar aqui qual exatamente foi o sentimento desencadeado naquele momento. Talvez a angústia tenha se sobressaído, mas seria injusto listá-la apenas.

A única coisa que sei dizer, é que toda a história acadêmica passa na sua frente como um filme, e você se lembra dos primeiros anos, onde o estágio e a atuação prática eram tão sonhados e desejados. Ficamos todos perdidos, desamparados, ansiosos, com medo, com dúvidas e sem saber qual caminho tomar. Tantas opções, tantos campos, tantas vidas...

Assumir essa posição, significa deixar para trás aquela posição de aluno inexperiente. É sair da posição passiva para a ativa. É sair da condição da alienação prática, e tornar concreto aquilo que você passou anos estudando. Mas toda escolha é seguida de angústia.

A angústia que nos toma e nos preenche, e também nos faz indagar se seremos suficientemente bons naquilo que estudamos. A angústia de não tornar a vida de alguém melhor ou mais leve. E isso é carregado por dias, semanas e meses, até você mostrar para si mesmo do que é capaz.

Para fazer essa escolha, preciso abrir mão daquilo que sou hoje para aquilo que quero ser amanhã. Toda escolha significa um "abrir mão", significa um passo diferente num caminho desconhecido, e o desconhecido sempre nos intriga, nos amedronta e nos angustia.

Mas como seriam construídas as nossas estradas sem estas escolhas? Como iríamos mudar o caminho sem virar à esquerda ou à direita? Assim, o caminho seria sempre o mesmo, não seria incerto e angustiante, mas seria sempre o mesmo. E de que valeria tanto tempo, tanto estudo, tanta aprendizagem, tanto amadurecimento, tanto esforço para se seguir o mesmo caminho? Sempre penso que o medo não pode ser mais forte do que isso, ou pelo menos não deveria.

Não há estrada sem buracos, sem retornos e sem desvios. Há estradas com retas contínuas ou com saídas diferentes, os quais somos nós quem decidimos qual caminho tomar. A angústia faz parte, o medo é um bônus, a insegurança vem escondida na mochila, mas todos eles podem se perder no trajeto.

E assim fiz minha escolha, com todos estes sentimentos juntos, mas com a satisfação de quem encontra aquilo que por tantos anos procurou. Consegui então, distinguir tais sentimentos que antes eram tão simbióticos.

Fiz dessa publicação uma página de um diário. Realmente precisei exteriorizar essa angústia, afinal não foi em vão que aprendi que é com a superação da mesma que o sujeito se liberta e movimenta a grande roda da metamorfose, enxergando novos horizontes.

E lá vou eu, por mais uma nova estrada.

Abç... Patrícia.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Romaria, pros meus (ou seus) pecados.

Provavelmente até terminar de ler o livro de poemas de Carlos Drummond de Andrade, algumas eu estarei colocando aqui, porque me chamam a atenção.
Ontem li o "Romaria" onde ele fala dos homens que pedem à Jesus coisas boas, mesmo com todas as coisas ruins que fazem. Isso também me fez recordar aquilo que escrevi na publicação "Até onde vai nossa tolerância?" onde disse que o ser humano se sente menos culpado por seus atos, quando alguém é mais maldoso do que ele, e que também aquilo que quero se sobrepõe aos valores, meus e seus. Me fez também pensar no recente fato da morte de Bin Laden, onde todos os americanos foram às ruas para comemorar a morte de uma pessoa. Mas para eles, nada mais justo, "matamos aquele que matou nosso povo, Deus irá nos perdoar."
E assim seguimos, sempre achando que a nossa "cruz" é maior do que qualquer pessoa, independentemente de nossos atos desprezíveis.
Segue o poema de Drummond:

Romaria

Os romeiros sobem a ladeira
cheia de espinhos, cheia de pedras,
sobem a ladeira que leva a Deus
e vão deixando culpas no caminho.

Os sinos tocam, chamam os romeiros:
Vinde lavar os vossos pecados.
Já estamos puros, sino, obrigados,
mas trazemos flores, prendas e rezas.

No alto do morro chega a procissão.
Um leproso de opa empunha o estandarte.
As coxas das romeiras brincam no vento.
Os homens cantam, cantam sem parar.

Jesus no lenho expira magoado.
Faz tanto calor, há tanta algazarra.
Nos olhos do santo há sangue que escorre.
Ninguém não percebe, o dia é de festa.

No adro da igreja há pinga, café,
imagens, fenômenos, baralhos, cigarros
e um sol imenso que lambuza de ouro
o pó das feridas e o pó das muletas.

Meu Bom Jesus que tudo podeis,
humildemente te peço uma graça.
Sarai-me, Senhor, e não desta lepra,
do amor que eu tenho e que ninguém me tem.

Senhor, meu amo, dai-me dinheiro,
muito dinheiro para eu comprar
aquilo que é caro mas é gostoso
e na minha terra ninguém não possui.

Jesus meu Deus pregado na cruz,
me dá coragem pra eu matar
um que me amola de dia e de noite
e diz gracinhas a minha mulher.

Jesus Jesus piedade de mim.
Ladrão eu sou mas não sou ruim não.
Por que me perseguem não posso dizer.
Não quero ser preso, Jesus ó meu santo.

Os romeiros pedem com os olhos,
pedem com a boca, pedem com as mãos.
Jesus já cansado de tanto pedido
dorme sonhando com outra humanidade.

Abç... Patrícia.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

E temos todos fome de bola...

(Texto publicado originalmente no extinto blog "Zine Pasárgada")


É realmente incrível o tempo que o futebol toma do brasileiro, seja para vibrar, provocar ou criticar. Claro que todos nós já percebemos isto, mas a cada vez que torno a voltar à um estádio isso fica muito mais evidente e cristalizado.

Nos 90 minutos vemos de tudo: alegria, indignação, raiva, euforia e tudo aquilo que o futebol pode nos proporcionar, mas a emoção é inerente a todos, tanto aos espectadores quanto aos jogadores. Emoções de lados opostos, emoções distintas, porém emoções.

Uns se calam num silêncio ensurdecedor, outros gritam até sua voz virar silêncio, a paixão muda de intensidade, a opinião crítica oscila no conhecimento, a expressão muda de cara. Mas todos estão lá, no sentido duplo do entendimento. Todos estão total ou parcialmente ali, com pouca ou muita atenção, mas estão. O futebol envolve, apaixona, irrita, entristece ou alegra, mas movimenta as emoções numa engrenagem completamente ativa e intensa, até você perceber que ele te invadiu sem precisar da sua permissão.

Dedico essa publicação ao querido Esporte Clube XV de Novembro de Piracicaba que parou sua cidade no último sábado com a conquista do Penta Campeonato da série A2 e que fez a cidade inteira perceber o quanto a emoção do futebol nos invade. Time guerreiro do interior caipira que está de volta à elite do futebol paulista, merecidamente.

Abç... Patrícia.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Aceitamos sugestões. Obrigada e volte sempre.

É engraçado perceber que a falta de assunto pode virar assunto.
Estou há dias procurando um bom tema tanto para este blog, como para o novo blog que também estarei escrevendo. Mas a minha inspiração sempre veio das situações vivenciadas no dia a dia ou nos assuntos emergentes que sempre nos entretem.
Embora muitas situações estejam prendendo a minha atenção nos últimos dias, como o casamento real, a morte de Bin Laden e até as discussões rotineiras do cotidiano, não consegui achar o tema privilegiado para tal publicação. Não ousarei a falar de Bin Laden, pois, ignorância assumida, não tenho conhecimento nenhum da política que envolve todo este assunto (infelizmente). E nem falarei aqui do casamento real, pois muitas revistas, jornais, sites, etc e tal já fizeram isso por mim. E não, não fui convidada para o casamento, como todos escreveram no facebook. Continuo sendo da plebe.
Por outro lado, toda esta falta de assunto, virou assunto! E senti vontade de escrever sobre essa falta, que virou sobra. Pouco, mas sobrou.
E vi também que não escrevo textos românticos, apesar de querer muito.
Percebi que gosto do questionamento, da crítica (positiva ou não), da informação, da filosofia e do blá blá blá. E assim eu fico sempre me questionando: Qual meu tema de hoje? E nada vem...
Isso até me fez sentir (um pouco, é claro) literária hoje. Mas mesmo assim minha procura continua.
Em todo caso, aceitamos sugestões. Obrigada e volte sempre.
Abç... Patrícia.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Até que a morte os separe!

No último sábado fui ao casamento de minha prima, e como sempre, os casamentos me intrigam. Sempre fico prestando atenção em tudo: na decoração, nos convidados, na estrutura da igreja e principalmente na pregação do padre.
Quando estamos dentro de uma igreja, seja ela de qualquer religião, o padre ou pastor está ali evidentemente para pregar os valores da mesma. Mas uma das coisas que mais me chamou a atenção neste último foi quando ouvi o padre dizer à minha prima que a partir daquele momento, deveria ter como primeiro lugar em sua vida a responsabilidade de fazer seu marido feliz e vice-versa.
A igreja, podemos assim dizer, foi a primeira "clínica de psicologia" instalada no mundo. O ato de confissão, nada mais é do que a exteriorização daquilo que nos está fazendo mal, e que precisamos extirpar através da fala. Mas não podemos esquecer que toda igreja tem a sua política.
Muito além daquilo que é dito na igreja, me permiti a ir mais fundo naquele dizer do celebrador. Pensei na grande dificuldade desta "ordem", pois vivemos num mundo onde encontramos uma grande dificuldade em fazer da nossa felicidade o primeiro lugar, quanto mais fazer isso para outro (diga-se de um modo verdadeiro). Esta é a problemática implicada nesta fala: tenho a dificuldade de encontrar a minha felicidade, logo, vou procurar ser a felicidade do outro, que se mostra mais simples de se alcançar.
Mas este infelizmente é o erro do relacionamento.
Quando não estamos felizes conosco, dificilmente conseguiremos fazer alguém feliz. Precisamos ter em mente que para um relacionamento ser sadio, a felicidade e o bem-estar precisam morar em nós, não em nosso companheiro. É dessa maneira que uniões se estabelecem e duram da melhor forma possível até o seu determinado momento, findo ou não.
Penso às vezes que muitas relações são desfeitas porque nos deixamos em segundo plano, nos esquecendo de nós mesmos e de nossos desejos, que continuam pulsando estando você com alguém ou não. Com isto, não conseguimos realizar aquilo que nos é destinado no matrimônio, e para nos separarmos não é mais preciso a morte, mas sim a falta desse olhar introspectivo.
Agora o grande desafio: como, cada um de nós, coloca isso em prática?
Abç... Patrícia.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Até onde vai nossa tolerância?

Após muito tempo sem escrever, não poderia deixar de falar sobre o atual massacre que aconteceu em Realengo na última quinta-feira. A história, todos nós já sabemos, embora a cada dia que passe, novas informações sejam divulgadas.
Todo este acontecimento gerou uma grande revolta no povo brasileiro, onde a indignação se estabelece por se tratar da morte de crianças que mal tiveram direito à vida. Ainda não sou mãe, mas imagino o sofrimento que todas estas estão passando neste momento, o qual sabemos que nem é necessário julgar ou quantificar.
Mas o que me traz aqui, e de volta, é o que coloco no título: "Até onde vai a nossa tolerância?".
O assassino Wellington já não está mais entre nós, não está mais aqui para dizer qual foi sua motivação para tal ato, e mesmo assim todos estão ditando seus motivos, procurando justificativas para amenizarem sua dor, diagnosticando e batendo o martelo no seu "perfil psicológico".
Sinto, cada vez mais, que o ser humano precisa que alguém seja mais maldoso ou mais maligno do que ele, que seja mais culpado do que cada um de nós somos. Porque todos nós somos culpados de alguma coisa: ou pelo aquecimento global, ou pelo abuso infantil, ou pelo sigilo de informações de pessoas que sofrem por espancamento, ou por simplesmente fecharmos os olhos para a fome, para a desigualdade e para todas as outras injustiças que são cometidas por nós, seres humanos.
Esquecemos também da grande injustiça que fazemos com nossas crianças: daquelas que são depositárias de todos os sofrimentos e neuroses de seus pais, daquelas crianças que pedem socorro em silêncio mas não queremos ter o trabalho de ouvi-las. Não podemos nunca nos esquecer que um adulto já foi criança, e é na infância que precisamos depositar todo nosso carinho, atenção, cuidado e educação. Não podemos nos esquecer que uma criança sofre, e sofre até muito mais do que nós, porque ainda não possui a facilidade de expressão que desenvolvemos com o tempo. Muitas delas sofrem sozinhas. Muitas delas sofrem por transtornos psíquicos, os quais encaixamos nos diagnósticos da atualidade, não procurando por ajuda. Não vamos a fundo, não vamos ajudá-las, não olhamos para elas e para nós (que podemos muitas vezes sermos responsáveis por esse sofrimento).
Mas não temos tolerância para isto, não estamos preparados para lidar com a culpa da nossa responsabilidade, temos a dificuldade de enxergar nossos erros, porque nosso ego não está preparado pra isso. Então agora vamos todos julgar o porte de armas e nos esquecer do referendo para o desarmamento que ocorreu em 2005 e a maioria (da qual posso me isentar) votou para que isso não acontecesse. Vamos nos esquecer da criança que está em nossa casa, precisando de ajuda, para chorar pela morte da criança da rua de trás, e lembrar dos nossos quando algo pior tiver acontecido.
E vamos mais uma vez passar por cima do luto de todas essas crianças, misturando a angústia com a alegria, fazendo uma festa à elas quando elas retornarem à escola, e assim ajudando na confusão de sentimentos e burlando o direito que todas elas tem de superar e entender o que é a morte, roubando-lhes então a tolerância para isto. E assim vamos construindo adultos iguais à nós, intolerantes.
E então lhe pergunto: Até onde vai a sua tolerância?
Abç... Patrícia.